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PONTO FINAL: Um filme que faz refletir

dezembro 14, 2011

Por ADAMO BAZANI – CBN

“Uma viagem de ônibus! Você que anda todos os dias ou mesmo eventualmente neste fantástico veículo, integrador, pois reúne várias experiências e pessoas diferentes, já reparou em sua dinâmica?

Constantemente pessoas entram, saem. Todas buscam um destino, um sentido. Há aquelas pessoas que são apenas passageiras mesmo. Usam uma ou outra vez e nunca mais. Não voltam. Há aquelas que de simples passageiras, se tornam, como se diz no meio dos transportes, “demanda fixa”.

Essas pessoas marcam o dia a dia da dinâmica do ônibus e o ônibus marca seu cotidiano. Muitas fazem amizades entre os passageiros, com o motorista, com o cobrador. Inclusive, quando é folga ou falta deste profissional, o passageiro sente. E o contrário também: Se algum passageiro falta, o motorista e o cobrador percebem.

Mas surgem outros passageiros e constantemente vão aparecendo pessoas novas e as até amigas, repentinamente somem.”

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Ponto Final: do não-lugar ao lugar

novembro 16, 2011

Maria C. Monteiro
Professora Titular de Literaturas de Língua Inglesa – UERJ.

O filme é constituído por uma cadeia de cenas decorridas, na sua maioria, no ônibus ou no terminal da linha rodoviária. O ponto final torna-se ponto de encontro, de chegadas e partidas, de buscas. O coletivo leva uns passageiros aos seus destinos, outros a lugar nenhum. As várias narrativas convergem para uma espécie de espaço trágico situado numa dimensão mais ampla, o Estado, pensado como agente de opressão e controle, sempre destacado nas vozes do motorista e do cobrador. Entretanto, apesar de o filme ser permeado de comentários de cunho político e social relativos ao Brasil de hoje, essa circunstância importa menos do que a universalidade das questões humanas nele dramatizadas, em tramas onde ganham relevo perdas, abandonos, procuras, no meio do difuso nonsense geral das coisas.
A história encena as vidas de duas personagens principais, impecavelmente criadas respectivamente por Roberto Bomtempo e Hermila Guedes. Ele, Davi, acaba de tornar-se “órfão” da filha, vítima de uma bala perdida. Ela, uma prostituta, sem nome, faz das viagens de ônibus ocasião para tristes demandas, seus clientes, é claro, mas também, e sobretudo, respostas para suas inquietações interiores, seu desconforto íntimo, tão intenso quanto vago. Com isso, o “não-lugar” das ações (o ônibus), como que abstratizado, torna-se um lugar onde se enlaçam três perspectivas de percepção da existência, tensas e contraditórias, porém intercomplementares: a do motorista, a de Davi, a da prostituta.
As cenas da história se desenvolvem na noite, quando os diálogos se abrem a uma certa intimidade, promovendo relações súbitas e impressentidas, entre presente e passado, encontros e desencontros, escolhas e desistências, tudo referenciado a uma busca obstinada pelo sentido dos gestos e ações do dia a dia.
As tomadas valorizam cor e espaço, sublinhando a significação dos episódios. Assim, por exemplo, a neblina, os ambientes sombrios materializam o vazio, que deixa de ser um tema abstrato, para integrar-se à trama, à maneira de uma suplementação sensorial. Mas, nessa atmosfera por assim dizer cinzenta, ganha relevo, por contraste, o tom vermelho, símbolo universal das paixões incendiárias: e há figurações poéticas de corpos e desejos, obstruídos porém pelo desconhecimento próprio e mútuo, que acaba impondo um derradeiro silêncio, a inviabilizar as relações: “uma chave na fechadura da porta, sustentando todas as outras, presas, inutilmente, no mesmo chaveiro”, diz um personagem, que no entanto atira a chave ao mar, em atitude libertária que desencadeia ventos e luzes, outras possibilidades enfim, onde o ponto final, como é próprio da virtude dos círculos, coincide com o ponto do começo.
Assinale-se ainda que o filme, na especificidade do seu método narrativo, procede por intermitência de cenas, situadas ora no passado ora no presente narrados, não por um encadeamento destinado a apreensão lógica e imediata, mas de modo um tanto tumultuário e nebuloso, lembrando portanto o ritmo dos relatos oníricos.
Trata-se, para dizer numa palavra, de um filme cuja complexidade temática e estrutural não há de deixar indiferentes os espectadores; como as obras de arte que fazem jus ao título, a par da beleza plástica da concepção, um filme, em síntese, que faz pensar.

Maria C. Monteiro
Professora Titular de Literaturas de Língua Inglesa – UERJ.
Autora de Sombra Errante: a preceptora na narrativa inglesa do século XIX (2000); Na aurora da modernidade: a ascensão dos romances gótico e cortês na literatura inglesa (2004); Leituras contemporâneas – interseções nas literaturas de língua inglesa (2009).

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‘Ponto final’ é uma metáfora sobre as relações partidas

setembro 1, 2011

Por Miguel Pereira

Exibido no último Festival de Gramado, Ponto final, de Marcelo Taranto, deve ter sua estreia comercial ainda em setembro. O filme vai na contramão do cinema que tem sido feito recentemente no Brasil. Não se destina às plateias que buscam no cinema apenas uma diversão imediata e logo esquecida. Pretende incomodar, fazer pensar, criar um certo desconforto no espectador que se sente um pouco como se entrasse num labirinto e andasse em círculos que não parecem ter fim. Trata-se de uma viagem que mistura passado e presente, sem estabelecer um ordenamento rígido dos tempos e dos espaços interpostos e sucessivos, numa lógica que procura a cumplicidade do espectador para fazer sentido. As lacunas ora aparecem como mudança de espaço, ora como monólogos reflexivos propostos diretamente ao espectador, ou ainda como quadros autônomos e repetitivos em planos de memória a serem conectados. A estrutura narrativa do filme se baseia assim numa forma aleatória que produz um certo estranhamento aos que estão habituados a receber tudo pronto como dado objetivo e concreto da narração.

A um só tempo, Ponto final se coloca como um discurso explícito das mazelas sociais brasileiras que tem como ponto de partida a morte casual de uma jovem, por bala perdida, numa rua do Rio de Janeiro, e como metáfora da vida contemporânea enquanto uma viagem ao íntimo das relações partidas, falidas ou em falência que são observadas no dia a dia de todos nós. Nesse mundo em que os afetos se desfazem com naturalidade e os reatamentos são complexos e de difícil realização, domina o desespero, o desencanto e um caminho inexorável para o fim, sem esperanças de mudança e expectativas de saída. É assim um filme que pesa como um sinal de alerta para um futuro incerto e sem grandes perspectivas. É um drama denso sob a aparência do óbvio. É, no fundo, um filme sobre a dor. A dor profunda da perda e a dor presente da diluição dos afetos.

Marcelo Taranto já havia abordado o tema da dor num curta-metragem premiado com o Margarida de Prata de CNBB, Ressurreição, de 1994. Na verdade, o sentido impresso naquele filme era a passagem do sofrimento de uma nação, o Brasil, para um novo tempo de abertura e possibilidades. A metáfora era também a linguagem escolhida por Taranto para traduzir o sentimento que queria transmitir ao espectador. Ponto final, de certo modo, examina o pouco avanço que fizemos no campo sócio-político e também nas estruturas sentimentais e afetivas que estamos vivendo. São quadros vivos de instantes, muitas vezes, propositalmente alongados e silenciosos, como a nos dizer que algo deve ser feito para que, no final, possamos encontrar algum alento. O chofer do ônibus, interpretado com talento e intensidade por Othon Bastos, é um pouco o condutor dos destinos que aponta para caminhos possíveis. Aliás, todo o elenco do filme traduz este sentimento de abandono com muita competência e nuances de expressão, Hermila Guedes, Roberto Bontempo, Dedina Bernardelli, Silvio Guindane e Júlia Bernat, sublinhados por uma trilha musical oportuna e bem posta.

fonte: Porta Puc-Rio Digital

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Debate do filme na Universidade PUC-Rio

maio 4, 2011

Auditório RDC PUC-Rio Filme Ponto Final.No dia 03 de maio, foi realizado um debate na PUC-Rio para dezenas de alunos, na sua maioria estudantes de cinema. O evento contou com a presença do diretor Marcelo Taranto, dos atores Roberto Bomtempo, Dedina Bernardelli e Silvio Guindane, e do roteirista do filme, Francisco José Alonso.

Após a exibição do filme a platéia levantou diversas questões sobre o processo de produção. Os atores falaram sobre suas motivações e como foi a construção dos personagens. Marcelo Taranto e Francisco José Alonso falaram do desafio de transmitir a linguagem do filme para os atores.

Um dos principais pontos do debate foi como os atores conseguiram manter toda emoção da personagem em uma narrativa não-linear. Cada um expôs sua visão pessoal  sobre a questão e o diretor Taranto revelou que “cercava” os atores entre as gravações  para não perder a carga emocional que ele precisava  para próxima cena.

Atores Diretor e Roteirista Filme Ponto Final

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