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Ponto Final: do não-lugar ao lugar

novembro 16, 2011

Maria C. Monteiro
Professora Titular de Literaturas de Língua Inglesa – UERJ.

O filme é constituído por uma cadeia de cenas decorridas, na sua maioria, no ônibus ou no terminal da linha rodoviária. O ponto final torna-se ponto de encontro, de chegadas e partidas, de buscas. O coletivo leva uns passageiros aos seus destinos, outros a lugar nenhum. As várias narrativas convergem para uma espécie de espaço trágico situado numa dimensão mais ampla, o Estado, pensado como agente de opressão e controle, sempre destacado nas vozes do motorista e do cobrador. Entretanto, apesar de o filme ser permeado de comentários de cunho político e social relativos ao Brasil de hoje, essa circunstância importa menos do que a universalidade das questões humanas nele dramatizadas, em tramas onde ganham relevo perdas, abandonos, procuras, no meio do difuso nonsense geral das coisas.
A história encena as vidas de duas personagens principais, impecavelmente criadas respectivamente por Roberto Bomtempo e Hermila Guedes. Ele, Davi, acaba de tornar-se “órfão” da filha, vítima de uma bala perdida. Ela, uma prostituta, sem nome, faz das viagens de ônibus ocasião para tristes demandas, seus clientes, é claro, mas também, e sobretudo, respostas para suas inquietações interiores, seu desconforto íntimo, tão intenso quanto vago. Com isso, o “não-lugar” das ações (o ônibus), como que abstratizado, torna-se um lugar onde se enlaçam três perspectivas de percepção da existência, tensas e contraditórias, porém intercomplementares: a do motorista, a de Davi, a da prostituta.
As cenas da história se desenvolvem na noite, quando os diálogos se abrem a uma certa intimidade, promovendo relações súbitas e impressentidas, entre presente e passado, encontros e desencontros, escolhas e desistências, tudo referenciado a uma busca obstinada pelo sentido dos gestos e ações do dia a dia.
As tomadas valorizam cor e espaço, sublinhando a significação dos episódios. Assim, por exemplo, a neblina, os ambientes sombrios materializam o vazio, que deixa de ser um tema abstrato, para integrar-se à trama, à maneira de uma suplementação sensorial. Mas, nessa atmosfera por assim dizer cinzenta, ganha relevo, por contraste, o tom vermelho, símbolo universal das paixões incendiárias: e há figurações poéticas de corpos e desejos, obstruídos porém pelo desconhecimento próprio e mútuo, que acaba impondo um derradeiro silêncio, a inviabilizar as relações: “uma chave na fechadura da porta, sustentando todas as outras, presas, inutilmente, no mesmo chaveiro”, diz um personagem, que no entanto atira a chave ao mar, em atitude libertária que desencadeia ventos e luzes, outras possibilidades enfim, onde o ponto final, como é próprio da virtude dos círculos, coincide com o ponto do começo.
Assinale-se ainda que o filme, na especificidade do seu método narrativo, procede por intermitência de cenas, situadas ora no passado ora no presente narrados, não por um encadeamento destinado a apreensão lógica e imediata, mas de modo um tanto tumultuário e nebuloso, lembrando portanto o ritmo dos relatos oníricos.
Trata-se, para dizer numa palavra, de um filme cuja complexidade temática e estrutural não há de deixar indiferentes os espectadores; como as obras de arte que fazem jus ao título, a par da beleza plástica da concepção, um filme, em síntese, que faz pensar.

Maria C. Monteiro
Professora Titular de Literaturas de Língua Inglesa – UERJ.
Autora de Sombra Errante: a preceptora na narrativa inglesa do século XIX (2000); Na aurora da modernidade: a ascensão dos romances gótico e cortês na literatura inglesa (2004); Leituras contemporâneas – interseções nas literaturas de língua inglesa (2009).

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