Um convite a tecer alteridades

outubro 4, 2011

Texto escrito por Maurício Fernandes Estudante de letras da PUC-RIO, ATOR e POETA

OS MUITOS PONTOS DA TECITURA DE TARANTO: UM CONVITE A TECER ALTERIDADES

“Ponto final” é, indubitavelmente, uma aula sobre o conceito de alteridade sem a pretensão de sê-la. Enquanto assistia a primeira aparição desta obra, na PUC-RIO, não entendia se apenas assistia ou iniciava uma tecitura de retalhos. Estes só poderiam ser meus pensamentos e inquietações mais profundas acerca da existência do Homem, das questões da Literatura e da Arte, sobretudo o Teatro; objeto de estudo eterno no qual me debruço. E ao tecer/ver o filme que se desvelava para mim, algumas palavras, cheias de poder, me acompanhavam num desafiador e sufocante percurso: Alteridade. Confronto interno. Amor. Dor. Filosofia. Sociologia. Psicanálise. Desejo. Sexo. Mitologia. Arte. Angústia. Infância. Enfim… A obra de Marcelo Taranto convida-nos, pelo menos a este humilde ator e poeta, a uma preciosa reflexão: a de repensar o que entende-se por humano e pela arte do cinema. Um cinema mais crítico, mais ácido e que ressucita a nossa loucura morta diariamente. Não nos acomodamos na cadeira do cinema, mas somos o outro que se apresenta na tela, cúmplices de uma história que também é nossa.

O olhar que lanço é no tocante ao devir que, tanto na literatura quanto na Arte e suas linguagens, tem por premissa perturbar e deslocar as muitas interpretações de um determinado objeto de estudo e/ou reflexão. E em detrimento a estedevir há o conceito de alteridade.
O grande incômodo e deslocamento que o filme nos propõe, entre outros, é tentar admitir o que há entre Davi e sua filha Beatriz. Há momentos em que vejo um no outro e uma só unidade. Davi é o outro de Beatriz e esta é, por sua vez, o outro de Davi. Na verdade enxergo em Davi um certo tom de Dante, nas buscas de si, numa espécie de inferno na metrópole. E a filha assume bem o papel da mesma Beatriz do clássico italiano de Alighieri. Começa então a busca pela multiplicidade de alteridades. Beatriz morre, mas uma morte física, ela já havia morrido mesmo estando viva. Num universo particular Beatriz significa para o mundo a representação das consciências, pelo menos de cada personagem que engendra a teia de diálogos ao longo do universo do filme. Sua marca é o silêncio sempre à margem da palavra que fala sem falar. A questão central para mim é que Davi percorre pelos meandros do seu ser em busca de respostas para os seus conflitos internos e o não querer ver seus demônios interiores.

É extremamente relevante ressaltar que há o encontro de muitos “Eus” no enigmático condutor do ônibus-vida, me refiro assim aquele transporte que vejo como uma barca de Queronte a nos guiar pelo rio Acheron. E é este condutor, vivido tão eximiamente por Othon Bastos, quem ajuda-nos a ver a essência dos personagens e de cada instante entre o respirar e a falta de ar que o filme provoca. Outra apaixonante persona, misto de trágico e cômico, é o empedernido trocador; uma espécie de Esfinge que sabiamente parece lançar-nos enigmas ao permitir a passagem à roleta do ônibus-vida. Não entramos no ônibus se não houver reflexões. Ele não deixa!

Voltando a Davi… Ele se vê, após a morte de sua filha-consciência, nas profundezas do rio Cócito, rio das lamentações da mitologia grega. É lá que estagna todo o seu processo de reencontro consigo.
A relação de amor-sexo-poesia que tramita entre Davi e a mulher do ônibus deve ser lido numa ótica existencialista. Como o casal de O gato, de  Simenon, eles parecem querer-se um ao outro e ao mesmo tempo estar o mais distante possível. Uma relação que precisa ser analisada com doses cavalares de Sartre e Beauvoir (tarja preta). Indiscutivelmente é a personagem vivida por Hermila Guedes quem trás para Davi um balão de oxigênio em meio aos infortúnios do Cócito.

Se a condição do humano é viver em sociedade numa cordial convivência civilizada, “Ponto Final” nos orienta a suicidarmos nossas mais profundas certezas do que seja viver. Ao contrário do que a sociedade brasileira incita-nos a fazer: defender nossos direitos e cumprir nossos deveres como exímios cidadãos, a obra cinematográfica do mago Taranto fomenta-nos a olhar o mundo e o outro como uma selva; a caminharmos pelas esquinas como que por cavernas, assim como aquela de Platão em sua fantástica Alegoria. Taranto e seu elenco, afiadíssimo e bom entendedor de teatro, convida-nos quase que por “livre e espontânea pressão” a jogarmo-nos também no rio Acheron e, mesmo sem saber nadar, tentar estabelecer minimamente um elo, quase que perdido na contemporaneidade, entre a loucura e a maldita normalidade a que somos chamados todos os dias.

Imploro a todos, entre desesperado e dócil, que vejam “Ponto final” não como um filme. Esta obra de arte não dá conta de dizer cinema, mas sim uma nova forma de entender o mundo a partir de uma leitura ao lado de obras como: Dom Quixote, O espelho, Alice no país das maravilhas, O pequeno príncipe, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Esperando Godot, O outro, A paixão segundo G.H entres outros tormentos necessários à alma. Entendam estas leituras como um receituário médico. Apresento-as como alguém que, inconformado com o mundo em que vive, não vê, se não na leitura, outra forma de entender-se a si próprio e ao mundo.

“Ponto final” é um cálice de formicida repleto de jujubas! Mosaico de espelhos partidos!
Salve o cinema!
Salve Taranto!
Salve a Arte!

Publicado em outubro 4, 2011 at 8:31 pm

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