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‘Ponto final’ é uma metáfora sobre as relações partidas

setembro 1, 2011

Por Miguel Pereira

Exibido no último Festival de Gramado, Ponto final, de Marcelo Taranto, deve ter sua estreia comercial ainda em setembro. O filme vai na contramão do cinema que tem sido feito recentemente no Brasil. Não se destina às plateias que buscam no cinema apenas uma diversão imediata e logo esquecida. Pretende incomodar, fazer pensar, criar um certo desconforto no espectador que se sente um pouco como se entrasse num labirinto e andasse em círculos que não parecem ter fim. Trata-se de uma viagem que mistura passado e presente, sem estabelecer um ordenamento rígido dos tempos e dos espaços interpostos e sucessivos, numa lógica que procura a cumplicidade do espectador para fazer sentido. As lacunas ora aparecem como mudança de espaço, ora como monólogos reflexivos propostos diretamente ao espectador, ou ainda como quadros autônomos e repetitivos em planos de memória a serem conectados. A estrutura narrativa do filme se baseia assim numa forma aleatória que produz um certo estranhamento aos que estão habituados a receber tudo pronto como dado objetivo e concreto da narração.

A um só tempo, Ponto final se coloca como um discurso explícito das mazelas sociais brasileiras que tem como ponto de partida a morte casual de uma jovem, por bala perdida, numa rua do Rio de Janeiro, e como metáfora da vida contemporânea enquanto uma viagem ao íntimo das relações partidas, falidas ou em falência que são observadas no dia a dia de todos nós. Nesse mundo em que os afetos se desfazem com naturalidade e os reatamentos são complexos e de difícil realização, domina o desespero, o desencanto e um caminho inexorável para o fim, sem esperanças de mudança e expectativas de saída. É assim um filme que pesa como um sinal de alerta para um futuro incerto e sem grandes perspectivas. É um drama denso sob a aparência do óbvio. É, no fundo, um filme sobre a dor. A dor profunda da perda e a dor presente da diluição dos afetos.

Marcelo Taranto já havia abordado o tema da dor num curta-metragem premiado com o Margarida de Prata de CNBB, Ressurreição, de 1994. Na verdade, o sentido impresso naquele filme era a passagem do sofrimento de uma nação, o Brasil, para um novo tempo de abertura e possibilidades. A metáfora era também a linguagem escolhida por Taranto para traduzir o sentimento que queria transmitir ao espectador. Ponto final, de certo modo, examina o pouco avanço que fizemos no campo sócio-político e também nas estruturas sentimentais e afetivas que estamos vivendo. São quadros vivos de instantes, muitas vezes, propositalmente alongados e silenciosos, como a nos dizer que algo deve ser feito para que, no final, possamos encontrar algum alento. O chofer do ônibus, interpretado com talento e intensidade por Othon Bastos, é um pouco o condutor dos destinos que aponta para caminhos possíveis. Aliás, todo o elenco do filme traduz este sentimento de abandono com muita competência e nuances de expressão, Hermila Guedes, Roberto Bontempo, Dedina Bernardelli, Silvio Guindane e Júlia Bernat, sublinhados por uma trilha musical oportuna e bem posta.

fonte: Porta Puc-Rio Digital

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